Estamos online. São os primeiros “bytes” do “JC” postados na web neste novo blog de “desenvolvimento”. Diante do monitor a leitura é outra. O “scroll” (curto, para já) revela-nos os títulos (não tem tanta piada descobrir novidades assim) e a leitura parece-nos (se os posts forem extensos) um bocado mais monótona. Na web, temos mais possibilidades, é certo, pois além da palavra e fotos, podemos incluir o vídeo (prenda de natal), o som, interagir através dos comentários (deixe a sua sugestão), etc, etc. Enfim, uma série de ferramentas estão à nossa disposição. Não sendo um “blog” noticioso talvez passarão por aqui a divulgação de algumas versões “beta” da nossa presença na web a médio prazo. Mas continuamos, sobretudo, a gostar de fazer jornais e jornalismo, afinal a nossa razão de ser.
Um dos comentários mais objectivos de Pat McQuaid desde que é presidente da União Ciclista Internacional foi publicado no britânico Guardian, na mesma edição em que o dirigente britânico confirma o interesse de Vladimir Putin na organização da Volta a Rússia. Considerações prévias sobre uma eventual uma corrida cujas negociações estão já em velocidade cruzeiro: a prova serviria de promoção aos Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi, em 2014, mas arrancaria já em 2009; a corrida seria inscrita no ProTour; o que Putin deseja, apesar da maneira musculosa de o alcançar, quase sempre o consegue; por fim, um “Tour of Russia” só faria sentido como um evento à escala do país, em dimensão, o maior do mundo. Entretanto, com Rússia em suspenso, até porque o desporto preferido do presidente militarista é o Judo, as partes mais sensíveis do discurso de McQuaid vem em frases com esta: “Não podemos continuar a ser um desporto europeu. Se continuamos sê-lo, então morremos”; “2008 será um ano de transição para o ProTour mas, em 2009, queremos um ProTour global. Haverá equipas que não estarão contentes com isso (ndr: Paolo Bettini, campeão mundial, queixou-se por estes dias que correr no Tour Down Under, na Austrália, custará a cada equipa cerca de 30 mil euros) mas outras existirão que procuram um alcance global e querem eventos fora da Europa”, afirmou. McQuaid, que não foi o ideólogo do ProTour - Hein Verbrugghen, abdicou de desenvolver na prática a ideia criada no papel - mas, afirmou-se em quatro anos de mandato, um acérrimo defensor desta liga milionária não obstante os danos colaterais: a guerra com ASO (organizadora da Volta a França) fez danos, e as Grandes Voltas deixaram o Circuito; a campanha antidoping sofreu boicotes e fugas de informação “sensíveis”; a fuga de sponsors foi, infelizmente e como se esperava, uma realidade.
Os desafios de McQuaid são, por isso, outros. Numa fuga para a frente, mantendo o fosso com a ASO - “no final do dia é uma empresa privada que pensa exclusivamente a curto prazo” - o dirigente escocês quer relançar a ideia de um ciclismo global com corridas exóticas como o Tour Down Under ou a Volta a Malásia. Atrás dos novos centros de poder económicos - uma Volta à China está no horizonte e a Corrida dos Campeões, no Dubai, esteve já agendada - o ciclismo prossegue na senda das restantes modalidades, globalizando-se para não perder terreno.
João Santos
A UCI promete, para 2008, mais uma novidade na luta contra a dopagem: o chamado “passaporte biológico”. Trata-se de uma caderneta de saúde onde são registados os valores sanguíneos de cada corredor, permitindo detectar variações drásticas que indiciem o consumo de substâncias proibidas ou o recurso a métodos interditos.
As vozes do costume já se vão levantando, fazendo uso do argumento habitual: o direito do cidadão, por acaso ciclista, à reserva e à intimidade da sua vida privada é posto em causa com este método. É um argumento irrefutável. Saber e tornar público o que corre nas entranhas de alguém é uma violação da intimidade. Acontece que não há direitos absolutos.
Actualmente, cada ciclista individualmente considerado deve beneficiar da presunção de inocência. Mas o ciclismo, entendido na sua globalidade, depois de tantos escândalos sucessivos, está sob um manto de presunção de culpabilidade.
É curioso que aquelas vozes que se levantam contra a necessidade de cada ciclista revelar um local para poder ser controlado inopinadamente e que brandem argumentos contra o “passaporte biológico” não digam uma palavra contra o recurso ao doping. Entendem haver um atentado contra os cidadãos sujeitos a métodos invasivos para detecção de práticas e/ou de substâncias proibidas, mas não se fazem ouvir relativamente ao atentado à saúde e, no fundo, à própria vida do atleta que se vê sujeito a determinadas práticas.
Aqueles que julgam defender o ciclismo contestando a ideia de que é preciso agir com mão de ferro, mais não fazem do que alimentar o manto de suspeição que pende sobre a modalidade. Não nos esqueçamos de dois ditados populares: “À mulher de César não basta ser séria, é preciso parecê-lo” e “quem não deve não teme”.
Portanto, penso que valerá a pena abdicar de alguns direitos em nome da credibilidade de que o ciclismo hoje carece. Neste sentido, julgo que o “passaporte biológico” é bem-vindo, desde que entendido numa perspectiva dissuasora. Existe para eliminar ou reduzir determinados comportamentos e não para apanhar os infractores. A ideia – utópica, bem sei - é que deixem de haver infractores. Ver o “passaporte biológico” como um método punitivo e não como maneira de dissuadir é ter a postura de Patrik Sinkewitz.
O ciclista alemão revelou que, perante a indicação de um director-desportivo segundo a qual não queria doping na equipa, entendeu que o chefe não desejava controlos “positivos”. Isto porque não passava pela cabeça do corredor que fosse possível alguém com tantas responsabilidades não querer o doping, pura e simplesmente. É provável, portanto, que exista por aí uma certa mentalidade segundo a qual o importante é que ninguém seja “apanhado”. Importa mudar mentalidades. E o “passaporte biológico” é uma boa medida nesse sentido.
José Carlos Gomes
Decidimos criar um prémio e ligar o nome do “JC” à atribuição de uma distinção validada por um conjunto de especialistas. Como critério para a escolha do Júri, deu-se preferência a jornalistas ou “equivalentes” (ver regulamento) que colaborem com orgãos de comunicação nacionais. E o Óscar da melhor revelação vai…
Regulamento
O Prémio Revelação - Jornal Ciclismo pretende premiar a revelação da época 2007 na categoria “Elite”. São elegíveis todos os corredores, portugueses e estrangeiros, ao serviço das equipas que integraram o pelotão nacional na temporada agora finda.
O Júri será constituído por um painel de jornalistas (ou título equivalente reconhecido pela Comissão Carteira Profissional de Jornalistas).
Tentativa identificadora de revelar a “sede” do Jornal Ciclismo. A nossa edição não é feita totalmente aqui, mas é por esta casa que se escoa o “produto” aos assinantes e pontos de distribuição. Em último caso, o mapa é útil aos motoristas da “gráfica” (pelo menos aos que não usam GPS).
Jornal Ciclismo
Rua Agra do Mato, 362 4435-089 Rio Tinto
Depois de três dias de intensa presença no Festival Bike, em Santarém, chega a hora de fazer o balanço em números: 500 jornais de sobra (servirão de arquivo) dos 4500 que levamos para o certame; 75 (aproximadamente) contactos efectuados com importadores e “marcas”; algum meio milhar de fotografias tiradas (com a colaboração do Fernando Fontes) e outros tantos quilómetros na sempre fiável Ford Transit. E também um “cansanço” que só agora está a passar. E se feira durasse uma semana?
Estamos online. São os primeiros “bytes” do “JC” postados na web neste novo blog de “desenvolvimento”. Diante do monitor a leitura é outra. O “scroll” (curto, para já) revela-nos os títulos (não tem tanta piada descobrir novidades assim) e a leitura parece-nos (se os posts forem extensos) um bocado mais monótona. Na web, temos mais possibilidades, é certo, pois além da palavra e fotos, podemos incluir o vídeo (prenda de natal), o som, interagir através dos comentários (deixe a sua sugestão), etc, etc. Enfim, uma série de ferramentas estão à nossa disposição. Não sendo um “blog” noticioso talvez passarão por aqui a divulgação de algumas versões “beta” da nossa presença na web a médio prazo. Mas continuamos, sobretudo, a gostar de fazer jornais e jornalismo, afinal a nossa razão de ser.
A notícia passou praticamente despercebida malgrado a ameaça que transporta: Andrei Kaschekin contestou o “positivo” por transfusão sanguínea de que foi alvo alegando violação dos direitos do homem. A argumentação do cazaque poderia ser alvo de alvo de alguma leitura simples mas, na prática, poderá transportar uma verdadeira bomba atómica que, em última análise, conseguida a jurisprudência, colocaria em causa alguns dos fundamentos base da recente luta anti-doping: os controlos supresa e os formulários de localização e até o novo “passaporte biológico” apresentado, na passada semana, em Paris. A argumentação jurídica está sediada em Bruxelas, no escritório de Luc Misson. O advogado que desregulou o mercado das transferências no célebre caso “Bosman” aceitou defender o corredor dopado baseando-se na violação dos artigos seis e oito da convenção dos direitos do homem. Misson contesta a “independência” da entidades “privadas” que regulam o desporto - os conselhos de disciplina das federações, por exemplo, e até o Tribunal Arbitral do Desporto - e a violação do direito à privacidade que constituem os controlos surpresa baseados na localização dos atletas a todo o tempo, a célebre alegoria da prisão domiciliária.
Se para exercer a profissão é preciso um “passaporte biológico”, então quem tem o direito de o aplicar? Quando na Cimeira de Lisboa se afirma a celebre “especifidade do desporto” a Justiça comum pode ter uma palavra a dizer. A jurisprudencia do caso Bosman alterou o modo como se vive o futebol na actualidade, um nova revolução com origem em Bruxelas poderia simplesmente dinamitar o sistema, abrindo brechas na justiça federativa, uma justiça “privada” mas sujeita aos grandes príncipios, em particular no que diz respeito às liberdades fundamentais.
João Santos
Portugal tem, pelo menos, três características que dificultam uma maior afirmação do ciclismo no plano mediático. A primeira é a escassa população do País, quando comparado com outras nações. A segunda, mas talvez a mais importante, é a hegemonia desportiva e, quase que diria, social do futebol. Por fim, os portugueses têm a “mania” das novidades e o ciclismo é tido como um desporto de velhos.
A hegemonia do futebol, conjugada com a escassez de população faz com que haja poucas pessoas “livres” para terem o ciclismo como modalidade preferida. O gosto pelo que é novo – ou vendido como tal – faz com que o interesse pelo que não é futebol se dirija para coisas como as corridas de “avionismo” de uma marca de bebidas energéticas ou para uma selecção dita de “amadores”, que é esmagada em cada jogo que faz, mas que é tratada como se fosse campeã mundial.
É por tudo isto que o ciclismo e os seus intervenientes são praticamente cidadãos anónimos para o português comum. José Azevedo andou na alta roda do ciclismo, obteve magníficos resultados na Volta a França e noutras corridas, mas em Portugal pouca gente sabe quem ele é. O mesmo se passa com o vice-campeão olímpico Sérgio Paulinho. Em contrapartida, provavelmente, a maioria dos nossos compatriotas reconhece aquele senhor barbudo e anafado, que é primo por afinidade do presidente da Comissão Europeia. Curiosamente ou talvez não, poucos se recordarão que esse “lobo” e mais alguns membros da “alcateia” foram detidos, há meses, após provocarem distúrbios no estrangeiro, ao serviço da selecção.
Vem isto tudo a propósito da participação de Cândido Barbosa num anúncio publicitário da Rota dos Móveis. Parecendo pouco importante, não o é. Cândido Barbosa é o ciclista nacional mais reconhecido e acarinhado pelo cidadão comum. E só agora, quando se prepara para o ocaso da carreira, é que a sua popularidade é comercialmente aproveitada.
Este atraso na chegada de Cândido Barbosa aos ecrãs, via publicidade, diz muito sobre o atraso do ciclismo em Portugal. As condições enunciadas no início deste editorial explicam muita coisa. Mas não explicam tudo. O meio velocipédico português ainda não sabe “vender” a modalidade, as corridas e os ciclistas como “produtos” apetecíveis. Temos um vice-campeão olímpico que poucos conhecem e temos uma selecção especialista em levar “cabazadas” que é idolatrada. Não há qualquer coisa aqui que não bate certo?
A necessária mudança de mentalidades e de comportamentos não passa, todavia, por atitudes de controlo férreo da informação. Uma equipa do nosso pelotão decidiu agora que para os seus corredores darem entrevistas, mesmo os sub-23, é necessário que as perguntas sejam enviadas por correio electrónico, de modo a serem respondidas pela mesma via. Como no Jornal Ciclismo gostamos de entrevistar os verdadeiros protagonistas e não os gabinetes de comunicação, não aceitaremos essas regras. E, mais uma vez, o ciclismo é que perde com a “cegueira” de alguns responsáveis.
José Carlos Gomes
Desconhece-se em Portugal uma selecção nacional que, diante da mais significativa competição, o campeonato do mundo, não se apresenta na sua máxima força preferindo colocar os melhores lugares à disposição de um regime arbitrário, misto de cumplicidade e voluntarismo, entre ciclistas e seleccionador. Se a polémica em torno da selecções nacionais pairava na exclusão de Tiago Machado, provelmente a mais séria aposta a uma medalha em Estugarda, a poeira da suspeita repousa agora na não participação de José Rodrigues, único ciclista impedido de alinhar nos Mundiais por falhar o teste de hematócrito. A má notícia, que recoloca Portugal uns patamares abaixo na cruzada anti-doping, teve o condão de relembrar a ausência frequente das chamadas primeiras figuras da equipa nacional. José Rodrigues brilhou no período pós-Volta mas numa equipa liderada por Cândido Barbosa, José Azevedo ou Sérgio Paulinho o seu lugar estaria naturalmente em questão. A raíz do problema, na Selecção de Elite, salvo justificação maior, decorre dessa manifesta indisponibilidade dos principais activos da selecção em vestir as cores nacionais. Deste modo, os critérios do seleccionador deverão repousar no compromisso entre atletas em forma e ciclistas dispostos ao “sacrificio” de prolongar, por mais dois meses, a época desportiva. Nos tempos que correm, uma selecção de compromisso parece-nos uma oportunidade desperdiçada e, eventualmente, uma má opção para o ciclismo português. Um regresso à selecção natural, dos melhores ao lado dos melhores, surge, agora e, em próximas edições dos Mundiais, como uma necessidade perene.
João Santos
O Benfica regressou ao ciclismo em 2007. Surgiu com um orçamento elevadíssimo para os padrões portugueses, com boas estruturas e com uma equipa muito competitiva. Os resultados foram desoladores. Mesmo assim, o investimento manter-se-á e a ambição não pára, como fica provado pelas contratações de Cândido Barbosa e de Ruben Plaza.
Ignoro se João Lagos gosta de ciclismo, mas não duvido que esteja nesta modalidade para ganhar dinheiro. Perante essa meta tem uma postura muito profissional e assaz racional. Ao arrematar os direitos de grande parte das corridas portuguesas, Lagos herdou uma marca bastante valiosa – a Volta a Portugal – e um pesado fardo – a maioria das corridas que se disputam no nosso país. O desafio que tinha pela frente era dar ainda mais valor acrescentado à Volta e tornar comercialmente mais apelativas as outras corridas. Como se faz isso? Tentando que o valor acrescentado da Volta a Portugal contaminasse as restantes provas, ou seja, fazendo com que a marca ciclismo se tornasse mais valiosa. Depois de um início errático, em que fez subir o nível das realizações velocipédicas em Portugal mas confundiu o público do ciclismo com o do ténis, o do golfe e o das revistas cor-de-rosa, decidiu apostar no clubismo. Investiu muito dinheiro no Benfica, clube com mais adeptos, para dar mais visibilidade ao ciclismo. Mesmo com resultados desportivos aquém do esperado, aumentou a cobertura mediática em torno da modalidade. Assim, compreende-se que a aposta continue e que o discurso se mantenha ambicioso. Apesar da racionalidade empresarial que preside a esta forma de estar no desporto, nunca nos poderemos esquecer de que não se trata de vender batatas. Estamos a falar de competições desportivas, pelo que os resultados na estrada serão essenciais para a consolidação do projecto e para a atracção de outras empresas para o patrocínio da equipa, juntando-se à Sagres Zero. No entanto, os resultados desportivos estão longe de ser garante do sucesso e da estabilidade. Que o diga o Boavista. Com um plantel curto e um orçamento baixo, conseguiu fazer uma eficaz gestão dos recursos humanos e terminou a época como uma das equipas portuguesas mais vitoriosas. Apesar disso, o seu patrocinador principal decidiu abandonar o ciclismo, deixando José Santos e a sua equipa de novo com a responsabilidade de encontrar financiamento para se manter na estrada em 2008. A racionalidade empresarial traz boas apostas e agradáveis surpresas. Mas também provoca desgostos e sentimentos de injustiça, como aconteceu nas bandas do Bessa. São as regras do jogo.
José Carlos Gomes
